Opinião: Ninguém escolhe ser refugiado

25.06.2026

Por Gustavo J. J. Nieto

Ninguém escolhe ser um refugiado, nem as circunstâncias que levam você a se converter em um. Mas quando o destino leva você a sair de seu país de origem por situações difíceis, que geralmente estão associadas à violação dos direitos humanos ou conflitos armados, a maioria das pessoas quer seguir em frente: trabalhar, estar com e ajudar a sua família, fazer novos amigos, se apaixonar, se integrar na cultura, etc. Embora pareça óbvio que ninguém escolheria ser um refugiado, convido vocês a refletir sobre algumas questões.  

Durante os anos 40 do século XX, segundo o ACNUR, chegaram à Venezuela mais de 55 mil pessoas que fugiam do horror da Segunda Guerra Mundial. Muitas chegaram na fazenda El Trompillo, localizada no Município Carlos Arvelo, o mesmo município onde eu nasci.  Nesse lugar, as famílias europeias receberam  assistência para poder reconstruir suas vidas. Eu cresci escutando falar dos albergues que foram construídos para eles: Las barracas del Trompillo, que tinham uma capacidade para até 2500 pessoas². Vocês acham que antes dos seus processos migratórios essas famílias, imaginavam que estariam fazendo as malas para vir para América do Sul, para morar num país caribenho chamado Venezuela, que talvez nem sabiam que existia?

Se falamos de literatura latinoamericana, muitos devem ter escutado sobre “La Casa de los Espíritus” (A Casa dos Espíritos), o primeiro romance da escritora chilena Isabel Allende, que já se considerou uma refugiada. Em 1975, a escritora foi forçada a sair do Chile depois do golpe militar e a se refugiar na Venezuela, onde viveu 13 anos. Esse livro foi escrito durante sua estadia em Caracas, onde também trabalhou como professora. Será que Isabel Allende pensou que seu primeiro e mais famoso livro seria escrito em um país que não era o Chile, durante seu processo de refúgio?

Outro ponto interessante é a formação acadêmica. Muitas pessoas passam anos estudando, investindo tempo e dinheiro para melhorar sua condição financeira porque todo mundo precisa viver e pagar contas. Eu não vou aprofundar aqui sobre problemas de desigualdade porque não é o ponto, mas tem pessoas que não tem oportunidades para estudar. Então algumas decidem trabalhar para pagar uma faculdade, realizam um esforço para poder estudar. Outras conseguem uma vaga numa universidade pública e  passam entre quatro e cinco anos estudando. Você tem um diploma de faculdade? Se sim, imagine ir para um lugar onde provavelmente seu diploma não tem valor. Você sabe no que poderia trabalhar se seu diploma fosse rejeitado?

No nosso país de origem, temos uma rede de apoio, esses familiares e amizades que você construiu num lugar onde nasceu e desde que nasceu. Esses queridos e queridas que cuidavam de seus filhos quando você tinha uma entrevista de trabalho ou quando você precisava ficar no hospital porque estava doente. Essas pessoas que recomendam a você para um emprego porque te conhecem (em muitos lugares isso existe). Você deixaria sua rede de apoio mesmo não tendo nem um real na conta bancária?

Seguindo tal lógica, chegamos à parte mais importante para mim: o afeto de seus seres queridos. Estar longe da família: não poder comemorar aniversários, não conhecer os membros mais jovens, não poder comemorar conquistas, não poder se despedir de seres queridos, etc. Talvez muitos pensaram “Bom, mas hoje temos videochamadas”, porém não é a mesma coisa. Quando você chega num lugar novo, precisa construir novas amizades, mas isso só acontece com o passar dos anos. Na distância a vida de cada um continua e nem sempre as horas para falar por telefone vão coincidir.

Quando você é refugiado ou imigrante vulnerável você perde muita coisa. Tem uma frase de Isabel Allende onde ela diz “Cuando eres un refugiado pierdes tu nación, tu tribu y tienes que crear una nueva comunidad. Sin la ayuda de otras personas, es imposible lograrlo”; eu concordo com ela, por isso acredito que ninguém escolhe ser refugiado. Você escolheria?


Este é um artigo de opinião inspirado em debates acadêmicos. Leituras relacionadas abaixo:

¹https://www.instagram.com/reels/DRE92GCiFsg/
²https://www.el-carabobeno.com/refugio-trompillo-los-inmigrantes-1947/

Sobre o autor

Licenciado em Educação/Inglês (Universidade de Carabobo, Venezuela). Especialista em Ensino de Língua Espanhola (UNESA). Há 8 anos, dá aulas de Espanhol no Brasil e, desde o início da Abraço RJ, trabalhou como professor e na autoria de materiais didáticos. Atuou como assessor pedagógico no projeto Mulheres Bilíngues (parceria SPM-RJ) e analista pedagógico no Núcleo de Educação e Cultura da Abraço RJ.

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