Como a situação da Venezuela é relevante para todo o Sul global

29.01.2026

Nos últimos meses, a situação da Venezuela tem ultrapassado as fronteiras do debate regional, tornando-se um ponto de atenção no contexto das transformações e tensões da ordem internacional contemporânea.

As recentes ações, declarações e denúncias envolvendo os Estados Unidos e a Venezuela — incluindo intervenções diretas e a captura do chefe de Estado venezuelano, que estava no poder desde 2013 — geraram forte repercussão internacional e reacenderam debates sobre soberania, direito internacional e ingerência externa. Esses acontecimentos evidenciam, mais uma vez, como o Sul global permanece no centro das disputas geopolíticas no mundo atual.

Ao mesmo tempo, é fundamental reconhecer que a crise venezuelana não pode ser explicada apenas por fatores externos. As escolhas políticas e econômicas das últimas décadas, somadas ao enfraquecimento das instituições democráticas, à repressão a dissidências e a processos eleitorais amplamente contestados, contribuíram de forma significativa para o agravamento das condições de vida da população.

Mais do que um episódio isolado, a Venezuela tornou-se um espelho das tensões que atravessam diversos países do Sul global: a disputa pela soberania nacional, o controle de recursos estratégicos, a imposição de sanções econômicas por países hegemônicos, a militarização da política externa e a erosão das regras do multilateralismo.

A crise venezuelana tem na migração um de seus impactos mais visíveis e profundamente humanos. Milhões de pessoas deixaram o país nos últimos anos em busca de condições dignas de vida, proteção e trabalho, formando uma das maiores diásporas do Sul global contemporâneo e revelando como crises políticas e econômicas produzem deslocamentos forçados em larga escala.

Os acontecimentos recentes como sintoma do declínio hegemônico

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em uma operação de forte impacto simbólico, político e cultural, foi interpretada por analistas como parte de uma estratégia de afirmação de poder em um contexto de disputa por recursos estratégicos, especialmente o petróleo, do qual a Venezuela detém a maior reserva do mundo.

Esse episódio reacende debates sobre práticas imperialistas e pode ser lido como um sinal das tensões de um sistema internacional em transformação, no qual antigas formas de hegemonia enfrentam limites crescentes. Instrumentos como o petrodólar, o controle energético e a obediência geopolítica já não operam com a mesma eficácia de décadas anteriores.

Venezuela e o controle soberano dos recursos naturais

No centro da crise venezuelana está a disputa pelo controle soberano de recursos estratégicos. O petróleo segue sendo um ativo central, agora articulado à transição energética global, à financeirização da economia e à reorganização das cadeias produtivas internacionais.

Para o Sul global, a mensagem é clara: países que buscam gerir autonomamente suas riquezas naturais enfrentam não apenas pressões econômicas, mas também riscos de intervenções políticas, jurídicas e militares. A Venezuela expõe o alto custo geopolítico da autonomia em um sistema internacional ainda profundamente assimétrico e hegemônico.

Sanções, coerção e precedentes perigosos

As sanções impostas à Venezuela ao longo da última década já haviam transformado o país em um caso extremo de coerção econômica, com impactos diretos sobre a população civil. As recentes intervenções elevam esse padrão a outro nível, abrindo precedentes preocupantes para outras nações do Sul global.

O uso combinado de sanções financeiras, narrativas de securitização e ações militares seletivas demonstra como instrumentos de poder continuam sendo aplicados fora dos marcos tradicionais do direito internacional. Nesse contexto, a soberania estatal torna-se cada vez mais condicional para países periféricos.

Internamente, as tensões políticas associadas a processos eleitorais contestados aprofundaram fissuras democráticas, impulsionando protestos massivos e mobilizações populares que reivindicam paz, respeito à vontade popular e melhores condições de vida.

A relevância da Venezuela extrapola suas fronteiras porque a América Latina concentra várias das fraturas do sistema global em transição. A disputa entre Estados Unidos e China, a reconfiguração das cadeias energéticas e a financeirização dos recursos naturais convergem na região, tornando-a um território estratégico dessas disputas.

O Sul global como espaço de experimentação geopolítica

O que ocorre na Venezuela ajuda a compreender por que o Sul global se tornou um dos principais campos de experimentação da nova ordem internacional. Conflitos localizados, intervenções indiretas, instabilidade financeira e disputas por recursos estratégicos se multiplicam em regiões periféricas, onde os custos políticos tendem a ser considerados menores pelas grandes potências hegemônicas.

A crise venezuelana dialoga diretamente com situações vividas por países da África, do Oriente Médio e da Ásia, que enfrentam sanções, pressões econômicas e tentativas de alinhamento forçado de suas políticas externas a interesses estrangeiros.

Esse cenário evidencia dinâmicas imperialistas enraizadas em histórias coloniais, que seguem produzindo desigualdades estruturais e limitando a soberania de países do Sul global. Por isso, a situação da Venezuela não se restringe apenas ao seu território: ela funciona como um alerta para todas as nações submetidas a processos semelhantes.

Migração, instabilidade e direitos humanos

A crise venezuelana tem na migração um de seus efeitos mais profundos e duradouros. Estima-se que milhões de pessoas tenham deixado o país nos últimos anos, impulsionadas pela combinação de instabilidade política, colapso econômico, restrições a direitos civis e deterioração das condições básicas de vida. Esses deslocamentos não podem ser compreendidos apenas como movimentos individuais, mas como resultado direto de contextos estruturais de crise.

No Sul global, a migração forçada frequentemente se apresenta como uma estratégia de sobrevivência diante da ausência de garantias mínimas de dignidade, trabalho e segurança. No caso venezuelano, os fluxos migratórios impactam países vizinhos e também nações mais distantes, como o Brasil, revelando a dimensão regional e transnacional da crise.

Esses deslocamentos expõem desafios urgentes relacionados à proteção internacional, ao acesso a direitos e ao combate à xenofobia, mas também evidenciam a potência das diásporas. Pessoas migrantes e refugiadas venezuelanas constroem novas redes sociais, econômicas e culturais, contribuindo ativamente para as sociedades que as acolhem, mesmo em contextos marcados por desigualdades e exclusões.

Ao compreender a migração como consequência direta de disputas políticas e econômicas — e não como ameaça —, torna-se possível deslocar o debate para uma perspectiva centrada em direitos humanos, solidariedade internacional e responsabilidade compartilhada, sobretudo pelos países que geralmente influenciam e influenciaram historicamente o desenvolvimento do Sul global. Em um mundo interconectado, crises locais produzem impactos globais, e as respostas a elas exigem cooperação, empatia e políticas comprometidas com a dignidade humana.

O que a Venezuela ensina ao Sul global

A Venezuela tornou-se um caso simbólico. Sua experiência revela os limites da autonomia em um sistema internacional em transformação e os riscos enfrentados por países que desafiam a lógica tradicional de poder. Ao mesmo tempo, expõe a fragilidade da chamada “ordem baseada em regras” quando confrontada por interesses estratégicos.

Para os países do Sul global — e, sobretudo, para as populações que vivem diretamente as consequências dessas disputas — a experiência venezuelana reforça a urgência de soluções baseadas em cooperação regional, fortalecimento democrático, justiça social e respeito irrestrito aos direitos humanos.

Para organizações que atuam junto a pessoas migrantes e refugiadas, como a Abraço Cultural, compreender a crise venezuelana é também reconhecer as histórias, saberes e contribuições que atravessam fronteiras e constroem novas formas de pertencimento no Brasil e no mundo.


Gostou do conteúdo? Confira nosso blog e siga a Abraço Cultural nas redes sociais!

Conteúdo relacionado