Por que parei de chamar de “língua estrangeira” aquilo que eu ensino há anos?

25.05.2026

Por Carolina de Oliveira Vieira

Durante a minha pesquisa de mestrado, na banca de qualificação, um professor me fez uma provocação que, para ele, parecia óbvia e, para mim, inicialmente, parecia apenas uma questão terminológica: “por que você não usa o termo língua adicional em vez de língua estrangeira?”

Eu dei aula de francês durante anos e uma expressão muito comum, desde a faculdade, era “Francês Língua Estrangeira” (ou français langue étrangère). FLE, para os mais íntimos. Esse termo servia, de forma breve, para falar do ensino de francês para aprendizes não nativos em contextos em que o francês não é a língua oficial. Por exemplo: ensinar francês para brasileiros e brasileiras em um curso livre no Brasil. Isso implica afirmar que essas pessoas se relacionam com essa nova língua a partir de uma posição de estrangeiras. E, até aí, tudo bem, né?

Eu me lembro da primeira vez em que, conduzindo um processo seletivo para professores e professoras na Abraço Cultural muitos anos atrás, perguntei, quase de forma retórica, a uma pessoa originária da República Democrática do Congo se o francês era sua língua materna. Ela me disse que não: o francês era a língua oficial do seu país, mas não era a língua da sua mãe. Foi a primeira vez em que compreendi, na prática, a distinção entre língua materna e língua nativa. Até então, no meu entorno, parecia haver apenas duas posições possíveis: ou se era “Francês”, caso em que língua materna e língua nativa se confundiam, ou se era estrangeiro ou estrangeira, como eu, situação em que, com sorte, aprendia-se bem uma língua e se tentava mascarar o sotaque da língua materna.

A provocação feita na banca de qualificação veio acompanhada de uma explicação que ficou ecoando em mim: quando falamos em língua estrangeira, adotamos a perspectiva de algo que nunca vai ser seu. Já a ideia de língua adicional parte de algo que você já tem. É algo novo, mas que se soma ao que já existe. É algo que também pode ser seu. Ou, pelo menos, é mais ou menos assim que hoje eu me aproprio dessa diferença.

Pesquisando sobre essa distinção entre língua estrangeira e língua adicional, encontrei um artigo em que se defende o uso do termo “língua adicional” como um conceito guarda-chuva para reunir as línguas “não primeiras”. A proposta não surge apenas para evitar uma distinção, muitas vezes complicada, entre diferentes formas de aprender uma língua, mas também para questionar a ideia de que essa língua é sempre algo de fora, algo que nunca será realmente nosso.

Eu encontrei o artigo da Ana Adelina apenas nos momentos finais da escrita da minha dissertação. Até então, eu ainda não tinha compreendido por que se relacionar com uma língua como estrangeira seria necessariamente problemático, especialmente porque essa ideia me parecia coerente com a realidade. Foi deixando o texto decantar, e ancorando essa leitura nas minhas próprias experiências, que comecei a me convencer. Foi também assim que acabei alterando toda a minha dissertação.

Passei a entender, por exemplo, o espanto comum de franceses que, ao me ouvir falar francês, duvidavam da minha nacionalidade e queriam saber como eu tinha aprendido a língua. O que, à primeira vista, poderia ser lido como um elogio, hoje me parece mais como evidência dessa posição de estrangeira que eu deveria assumir na relação com uma língua que não seria “minha”.

Foi aí também que comecei a entender por que, na faculdade, “o francês de Caxias”- expressão usada por um professor ao se referir ao sotaque de um estudante da minha turma – era motivo de chacota por parte de um professor que, embora brasileiro, adotava todo o universo francês como seu. Talvez fosse medo de olhar para o próprio espelho.

E foi aí, também, que entendi porque consegui me relacionar de outra maneira com o espanhol, língua que venho estudando, entre idas e vindas, nos últimos anos como aluna na Abraço Cultural. Aprender espanhol com amigos latino-americanos me tirou o peso de aprender uma língua que nunca seria minha para, em vez disso, aprender uma língua que é minha à minha maneira. Isso muda a percepção de distância. Pela primeira vez, deixo de encarar uma nova língua como algo tão distante e passei a trazê-la para o meu entorno.

Também mudou o tipo de energia que eu coloco na aprendizagem. Em vez de tentar apagar meu sotaque ou perseguir uma perfeição que, muitas vezes, se confunde com a ideia de “natividade”, posso direcionar essa energia para outras coisas: ler, mesmo sem entender t o d a s as palavras, aquela publicação superinteressante sobre cinema colombiano que apareceu no meu feed; ouvir e cantarolar errado a última música do Bad Bunny; assistir ao tutorial de salsa que acabaram de publicar na rede vizinha.

No fim das contas, percebo que a mudança não foi apenas de vocabulário. Se relacionar com uma nova língua como língua adicional, e não mais como língua estrangeira, foi um processo que aconteceu aos poucos ao longo dos últimos anos. Um processo que veio junto com a minha aproximação das discussões sobre língua e decolonialidade. E que, só agora, eu consigo finalmente nomear.


Este é um artigo de opinião inspirado em debates acadêmicos. Leituras relacionadas abaixo:

LÔPO RAMOS, Ana Adelina. Língua adicional: um conceito “guarda-chuva”. Revista Brasileira de Linguística Antropológica, v. 13, n. 1, p. 233-267, 2021.

DE OLIVEIRA VIEIRA, Carolina. Desafiando a colonialidade no ensino de línguas: um estudo de caso da Abraço Cultural. Dissertação de metrado em Educação – UNIRIO, Rio de Janeiro, 2026.

Sobre a autora

Carolina de Oliveira Vieira, conhecida como Cacau, é bacharela e licenciada em Letras (UFRJ), especialista em Educação e Cultura (FLACSO) e mestra em Educação (UNIRIO). Atua há mais de 15 anos na educação, com experiência em ensino de línguas, formação de facilitadores, tecnologias educacionais e perspectivas decoloniais. Após uma década como professora de francês, cofundou a Abraço Cultural em 2015, onde hoje é diretora e integra a equipe de liderança da organização. Também atua como consultora pedagógica em projetos voltados a práticas educacionais críticas, inclusivas e criativas.

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