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O que acontece quando uma conversa sobre refúgio e migração encontra uma sala de aula? E quando uma oficina de dança, culinária ou caligrafia árabe se transforma em uma oportunidade para questionar estereótipos, ampliar horizontes e construir empatia?
Em um mundo cada vez mais marcado pela circulação de pessoas, culturas e histórias, é mais do que sabido que formar cidadãos não significa apenas transmitir conteúdos. Para a verdadeira formação cidadã, como aponta a Competência Geral 10 da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é preciso desenvolver a capacidade de conviver com a diferença, compreender realidades diversas e agir com responsabilidade diante dos desafios coletivos do nosso tempo.
É justamente nesse encontro entre educação, cultura e cidadania que se insere o Abraço na Escola, iniciativa da Abraço Cultural que leva oficinas educativas e experiências interculturais para escolas públicas e privadas do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio nas regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Educação para além dos conteúdos
A educação contemporânea é chamada a desenvolver competências que vão muito além da memorização de informações. Empatia, pensamento crítico, escuta ativa, respeito às diferenças e capacidade de dialogar com realidades diversas tornaram-se elementos centrais para a formação cidadã.
Na Abraço Cultural, acreditamos que a aprendizagem acontece por meio das relações humanas. Essa visão está presente tanto nos nossos cursos de idiomas para adultos quanto nas experiências desenvolvidas para crianças, adolescentes e jovens por meio do Abraço na Escola. Para nós, aprender sobre migração, refúgio e diversidade cultural não significa apenas conhecer conceitos ou estatísticas. Significa entrar em contato com histórias reais, questionar estereótipos, ampliar repertórios e desenvolver novas formas de enxergar o outro e a si mesmo.
Nas oficinas realizadas com crianças, adolescentes e jovens, professores e professoras refugiados e migrantes visitam escolas para facilitar experiências que abordam temas como refúgio, migração, diversidade cultural e valorização das culturas do Sul Global.
As atividades podem incluir oficinas de:
- Sensibilização ao refúgio e à migração;
- Danças de países do Sul global, como salsa choke ou dabke;
- Culinária de países do Sul global, como arepa ou tabule;
- Caligrafia árabe;
- Amarração de turbantes com perspectivas africanas;
- Artes visuais, como na oficina “Pintanto o Sul global”, em que a sensibilização à cultura passa pelo (re)conhecimento de símbolos como o olho de horus ou a América Invertida;
- Outros aspectos culturais de diferentes países de origem da nossa equipe docente.

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Mais do que apresentar informações, essas experiências criam oportunidades de encontro e, muitas vezes, encantamento. Os estudantes não aprendem sobre pessoas refugiadas de forma abstrata; eles interagem diretamente com quem viveu processos migratórios e está construindo novas trajetórias no Brasil.
Essa dimensão humana da aprendizagem produz um impacto difícil de alcançar apenas por livros, vídeos ou reportagens. O professor Ender Molina¹, venezuelano e educador da Abraço Cultural, observa que a potência do Abraço na Escola está justamente na possibilidade de aproximar os estudantes de um tema que muitas vezes permanece distante de suas realidades:
“De uma forma participativa, os adolescentes se conectam com o tópico e com o facilitador/a, o que faz acordar o interesse pelo tema, numa população difícil de atingir com um assunto tão específico e pouco falado como esse.”
Para ele, essa experiência contribui para a formação de jovens mais conscientes e preparados para compreender uma realidade que faz parte da história humana:
“É muito simbólico poder contribuir com a formação de novos cidadãos de pensamento crítico, que crescerão com uma ideia mais clara sobre a situação de refúgio, que está próxima de todos, que promove inclusão e dá visibilidade a um tema que fez, faz e fará parte da história do mundo até o final dos dias.”
Combatendo preconceitos pela educação: como o Abraço na Escola contribui concretamente para a Competência 10 da BNCC?
Muitos dos preconceitos relacionados à migração e ao refúgio nascem da falta de informação. Narrativas simplificadas, estereótipos e desinformação acabam influenciando a forma como pessoas migrantes e em situação de refúgio são percebidas e acolhidas pela sociedade. Por isso, o trabalho realizado nas escolas possui uma relevância que vai além da sensibilização pontual. Ele contribui para desenvolver o pensamento crítico dos estudantes e ampliar sua capacidade de analisar informações, questionar generalizações e reconhecer a complexidade das experiências humanas.
Preconceitos e estereótipos frequentemente se alimentam do desconhecimento e podem restringir o acesso de pessoas migrantes a direitos básicos e oportunidades. Levar esse debate às escolas é uma forma de construir uma sociedade mais informada, inclusiva e preparada para conviver com a diversidade.
A relevância dessas ações desenvolvidas nas escolas também encontra amparo e pode ser compreendida no diálogo com a Competência Geral número 10 da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Essa competência propõe que os estudantes sejam capazes de:
“Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.” (BRASIL, 2018, p. 10)
Assim, refletindo diretamente sobre as oficinas que a Abraço leva para as escolas, estamos seguros de que as experiências oferecidas nas escolas trabalham de maneira concreta para o desenvolvimento das competências cidadãs previstas pela BNCC²:
- Quando crianças, adolescentes e jovens participam de uma oficina sobre refúgio e migração, eles são convidados a refletir sobre direitos humanos, desigualdades globais, pertencimento, acolhimento e convivência democrática.
- Quando aprendem uma dança, uma receita ou uma manifestação cultural de outro país, exercitam o respeito às diferenças e ampliam sua compreensão sobre a pluralidade de formas de viver, criar e produzir conhecimento.
- Quando escutam a história de alguém que atravessou fronteiras em busca de proteção ou novas oportunidades, desenvolvem empatia e a capacidade de reconhecer a humanidade presente em experiências de vida diferentes das suas.
Formar cidadãos para um mundo interdependente
Vivemos em uma sociedade que, ainda que cada vez mais diversa, está extremamente conectada. Questões relacionadas à migração, aos deslocamentos humanos e à convivência intercultural não são temas distantes: fazem parte da realidade das escolas, das comunidades e das cidades. Preparar as novas gerações para esse contexto exige experiências educativas que promovam não apenas conhecimento, mas também sensibilidade, escuta, respeito e responsabilidade coletiva.
Ao levar para dentro das salas de aula discussões sobre refúgio, cultura, identidade e diversidade, o Abraço na Escola contribui para a formação de crianças, adolescentes e jovens mais conscientes do seu papel na sociedade e mais preparados para construir relações baseadas na empatia e no diálogo. Porque formar pessoas cidadãs também é criar oportunidades para que diferentes histórias se encontrem. E, quando isso acontece, todo mundo aprende.
Este é um artigo de opinião inspirado em debates acadêmicos. Leituras relacionadas abaixo:
¹Em depoimento por escrito em setembro de 2023, para o site https://mireplataforma.com.br/abraco-cultural-leva-tema-do-refugio-para-adolescentes/. A integra do depoimento pode ser acessada aqui.
²BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. Disponível em: https://cdn.mec.gov.br/basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf
Sobre o autor

Licenciado em Letras, Português e Inglês e suas literaturas, pela UFSJ, é mestre e doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Voluntário desde 2016, passou a integrar o Núcleo de Educação e Cultura da Abraço Cultural em 2019. Atua como coordenador pedagógico da Abraço Cultural RJ, desenvolvendo atividades relacionadas à formação de professores, ao acompanhamento e à gestão de experiências de aprendizagem e à produção de materiais didáticos.
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