
Todos os dias fazemos dezenas, centenas, milhares de escolhas. Algumas no piloto automático, outras de maneira consciente. Dentro deste cenário, decisões ponderadas se tornam valiosas: aquilo que comemos, vestimos, lemos, assistimos e lugares para os quais viajamos. Mas o quanto dessas ações são livres de vieses do subsconsciente? E quanto é resultado de referências que aprendemos a considerar naturais, adequadas ou desejáveis?
Essas perguntas também atravessam a educação. O percurso até à sala de aula envolve: sobre o que ensinar, como ensinar, as referências a serem utilizadas e, sobretudo, quais conhecimentos considerar legítimos e pertinentes. Muitas dessas escolhas são tão incorporadas às nossas práticas que deixam de ser percebidas como algo a ser elegível. É justamente nesse espaço, entre aquilo que parece natural e aquilo que pode ser questionado, que entendemos a formação docente como um processo fundamental para o aprimoramento do que já é, do que pode ser.
Na Abraço Cultural, uma aula de uma hora e meia é resultado de um processo amplo. Antes de chegar à sala de aula, existem reuniões, leituras, estudos, trocas, reflexões e experimentações. Por isso, pensar a qualidade de uma prática pedagógica implica também em olhar para os processos que permitem que ela aconteça. Um dos pontos de partida para que isso ocorra é: a Jornada de Formação Didática Inicial.
Ao longo de três semanas consecutivas e 32 horas de encontro e atividades, a formação inicial busca não apenas apresentar ferramentas pedagógicas, mas criar condições para que futuros docentes reflitam sobre as próprias concepções de ensino e aprendizagem. Priorizamos metodologias ativas, práticas colaborativas e momentos de experimentação pedagógica porque entendemos que aprender a ensinar está além de uma transmissão de técnicas. É preciso praticar, arriscar, observar, discutir, reformular e reconhecer que diferentes pessoas chegam à formação carregando experiências anteriores de aprendizagem e ensino.
A formação, portanto, não pretende apagar as experiências que as pessoas trazem consigo, mas colocá-las em diálogo com novas referências e com outras formas de compreender a educação, em um movimento de confluência.
É nesse sentido que também compreendemos a formação continuada. Se o processo de ensino-aprendizagem é permanente, o desenvolvimento docente também precisa ser.
Por isso, nossas formações continuadas são mantidas e instigadas na perspectiva:
- De uma construção coletiva de conhecimento
- Expansão de saberes de metodologias ativas
- Criação de estruturas que favoreçam a participação e a autonomia Fortalecimento de pedagogias decoloniais
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A formação docente, portanto, não é um processo linear no qual uma pessoa recebe conhecimentos e passa a aplicá-los. É um movimento contínuo de construção, desconstrução e reconstrução de saberes. Na Abraço, esse processo ganha uma dimensão particular porque acontece em uma comunidade formada por diferentes trajetórias migratórias, culturais, linguísticas e profissionais.

Ser um espaço formativo para pessoas refugiadas e migrantes significa, nesse sentido, mais do que oferecer uma formação inicial e ações de formação continuada. Significa criar condições para que essas pessoas possam desenvolver-se profissionalmente, exercer a docência, compartilhar seus conhecimentos e participar da construção de novas práticas pedagógicas. Ao mesmo tempo, significa reconhecer que esse processo transforma a própria organização. As pessoas que chegam à Abraço não apenas aprendem uma proposta pedagógica: elas também a tensionam, ampliam e modificam. Seus sotaques, suas línguas, suas histórias, suas experiências educacionais e profissionais e suas formas de compreender o mundo passam a fazer parte daquilo que a instituição aprende sobre ensinar e aprender.
Essa diversidade vai além de um mero detalhe a ser administrado, mas como o próprio ponto de partida do processo formativo e pilar da instituição. Com tantas trajetórias acadêmicas plurais, é esperado que exista um reflexo plural na maneira em que cada pessoa formada aprendeu e ensinou. Nosso papel é ilustrar essas experiências para, indo de encontro com a substituição de um modelo único, criar condições para que elas sejam reconhecidas, nomeadas e colocadas em diálogo. Ninguém chega no vazio, ninguém há de ser completamente preenchido. Discutimos avaliação, planejamento, gestão de sala e abordagem comunicativa, mas sempre a partir de perguntas que atravessam essas técnicas: quem decidiu que essa língua deveria ser ensinada assim? Que culturas aparecem nos livros didáticos e quais são silenciadas? O que significa ensinar a própria língua em um país que, muitas vezes, enxerga a pessoa migrante apenas pela lente da vulnerabilidade?
Na Abraço Cultural, pessoas em situação de refúgio e migrantes podem ser educadoras. Ocupando, assim, espaço, território e saberes. É, por acarretamento, diverso. O conhecimento não está restrito à coordenação pedagógica, mas circula, prospera e multiplica. Formar professores e professoras é uma escolha que poderia ser feita no piloto automático, reproduzindo manuais, métodos e referências que chegam prontos. Escolhemos outro caminho, que, em comparação, é mais lento e trabalhoso. Decisões pautadas pela consciência de uma autenticidade que só se torna possível quando entende-se o valor do múltiplo.
Um caminho que só permite o avanço quando o outro é escutado, o sotaque é traço de incontáveis histórias e geografias, quando a sala de aula é território de encontro entre mundos de um sistema macro. Cada hora e meia de aula é fruto de inúmeras, incontáveis, decisões. E é por isso que, para nós, a formação vai além de uma mera capacitação pedagógica, uma preparação de como esperamos que se ensine. A formação é contínua, sendo atualizada e desenvolvida a cada semestre, levando em consideração cada nova turma, cada professora e professor que chega trazendo consigo um pedaço do mundo que ainda não conhecíamos.
Este é um artigo de opinião inspirado em debates acadêmicos. Leituras relacionadas abaixo:
[Livro] Diretrizes pedagógicas da Abraço Cultural 2026
Sobre a autora:

Vitória Trombeta possui bacharelado e licenciatura em Letras (Árabe/Português) pela USP. Em 2018 e 2020 realizou estudos de árabe em Omã. Atuou como intérprete e tradutora na Cáritas SP e junto ao Comitê Nacional para Refugiados. É analista pedagógica na Abraço SP, responsável pela gestão de oficinas culturais, formação de professores e acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem.
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