O espaço formativo de pessoas refugiadas e a valorização de saberes na Abraço

30.09.2026

Todos os dias fazemos dezenas, centenas, milhares de escolhas. Algumas no piloto automático, outras de maneira consciente. Dentro deste cenário, decisões  ponderadas se tornam valiosas: aquilo que comemos, vestimos, lemos, assistimos e lugares para os quais viajamos. Mas o quanto dessas ações são livres de vieses do subsconsciente? E quanto é resultado de referências que aprendemos a considerar naturais, adequadas ou desejáveis? 

Essas perguntas também atravessam a educação. O percurso até à sala de aula envolve: sobre o que ensinar, como ensinar, as referências a serem utilizadas e, sobretudo, quais conhecimentos considerar legítimos e pertinentes. Muitas dessas escolhas são tão incorporadas às nossas práticas que deixam de ser percebidas como algo a ser elegível. É justamente nesse espaço, entre aquilo que parece natural e aquilo que pode ser questionado, que entendemos a formação docente como um processo fundamental para o aprimoramento do que já é, do que pode ser. 

Na Abraço Cultural, uma aula de uma hora e meia é resultado de um processo amplo. Antes de chegar à sala de aula, existem reuniões, leituras, estudos, trocas,  reflexões e experimentações. Por isso, pensar a qualidade de uma prática pedagógica implica também em olhar para os processos que permitem que ela aconteça. Um dos pontos de partida para que isso ocorra é: a Jornada de Formação Didática Inicial. 

Ao longo de três semanas consecutivas e 32 horas de encontro e atividades, a formação inicial  busca não apenas apresentar ferramentas pedagógicas, mas criar condições para que futuros docentes reflitam sobre as próprias concepções de ensino e aprendizagem.   Priorizamos metodologias ativas, práticas colaborativas e momentos de experimentação pedagógica porque entendemos que aprender a ensinar está além de uma  transmissão de técnicas. É preciso praticar, arriscar, observar, discutir, reformular e reconhecer que diferentes pessoas chegam à formação carregando experiências anteriores de aprendizagem e ensino. 

A formação, portanto, não pretende apagar as experiências que as pessoas trazem consigo, mas colocá-las em diálogo com novas referências e com outras formas de compreender a educação, em um movimento de confluência. 

É nesse sentido que também compreendemos a formação continuada. Se o processo de ensino-aprendizagem é permanente, o desenvolvimento docente também precisa ser.

Por isso, nossas formações continuadas são mantidas e instigadas na perspectiva: 

  1. De uma construção coletiva de conhecimento
  2. Expansão de saberes de metodologias ativas
  3. Criação de estruturas que favoreçam a participação e a autonomia Fortalecimento de pedagogias decoloniais 

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A formação docente, portanto, não é um processo linear no qual uma pessoa recebe conhecimentos e passa a aplicá-los. É um movimento contínuo de construção, desconstrução e reconstrução de saberes. Na Abraço, esse processo ganha uma dimensão particular porque acontece em uma comunidade formada por diferentes trajetórias migratórias, culturais, linguísticas e profissionais.

Ser um espaço formativo para pessoas refugiadas e migrantes significa, nesse sentido, mais do que oferecer uma formação inicial e ações de formação continuada. Significa criar condições para que essas pessoas possam desenvolver-se profissionalmente, exercer a docência, compartilhar seus conhecimentos e participar da construção de novas práticas pedagógicas. Ao mesmo tempo, significa reconhecer que esse processo transforma a própria organização. As pessoas que chegam à Abraço não apenas aprendem uma proposta pedagógica: elas também a tensionam, ampliam e modificam. Seus sotaques, suas línguas, suas histórias, suas experiências educacionais e profissionais e suas formas de compreender o mundo passam a fazer parte daquilo que a instituição aprende sobre ensinar e aprender.

Essa diversidade vai além de um mero detalhe a ser administrado, mas como o próprio ponto de partida do processo formativo e  pilar da instituição. Com tantas trajetórias acadêmicas plurais, é esperado que exista um reflexo plural na maneira em que cada pessoa formada  aprendeu e ensinou. Nosso papel é ilustrar essas experiências para, indo de encontro com a substituição de um modelo único, criar condições para que elas sejam reconhecidas, nomeadas e colocadas em diálogo. Ninguém chega no vazio, ninguém há de ser completamente preenchido. Discutimos avaliação, planejamento, gestão de sala e abordagem comunicativa, mas sempre a partir de perguntas que atravessam essas técnicas: quem decidiu que essa língua deveria ser ensinada assim? Que culturas aparecem nos livros didáticos e quais são silenciadas? O que significa ensinar a própria língua em um país que, muitas vezes, enxerga a pessoa migrante apenas pela lente da vulnerabilidade?

Na Abraço Cultural, pessoas em situação de refúgio e migrantes podem ser educadoras. Ocupando, assim, espaço, território e saberes. É, por acarretamento, diverso. O conhecimento não está restrito à coordenação pedagógica, mas circula, prospera e multiplica. Formar professores e professoras é uma escolha que poderia ser feita no piloto automático, reproduzindo manuais, métodos e referências que chegam prontos. Escolhemos outro caminho, que, em comparação, é mais lento e trabalhoso. Decisões pautadas pela consciência de uma autenticidade que só se torna possível quando entende-se o valor do múltiplo. 

Um caminho que só permite o avanço quando o outro é escutado, o sotaque é traço de incontáveis histórias e geografias, quando a sala de aula é território de encontro entre mundos de um sistema macro. Cada hora e meia de aula é fruto de inúmeras, incontáveis, decisões. E é por isso que, para nós, a formação vai além de uma mera capacitação pedagógica, uma preparação de como esperamos que se ensine. A formação é contínua, sendo atualizada e desenvolvida a cada semestre, levando em consideração cada nova turma, cada professora e professor que chega trazendo consigo um pedaço do mundo que ainda não conhecíamos. 

Este é um artigo de opinião inspirado em debates acadêmicos. Leituras relacionadas abaixo:

O peso invisível das escolhas 

[Livro] Diretrizes pedagógicas da Abraço Cultural 2026

Sobre a autora:

Vitória Trombeta possui bacharelado e licenciatura em Letras (Árabe/Português) pela USP. Em 2018 e 2020 realizou estudos de árabe em Omã. Atuou como intérprete e tradutora na Cáritas SP e junto ao Comitê Nacional para Refugiados. É analista pedagógica na Abraço SP, responsável pela gestão de oficinas culturais, formação de professores e acompanhamento do processo de ensino e aprendizagem.

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